
Nessa pequena novela, o protagonista ergue sua estrutura existencialista ambientada entre duas cidades fictícias e sem nome – uma ao sul e outra ao norte −; entre duas realidades nas quais a instabilidade financeira de seus pais lhe impõe convivência. Os pontos convergentes entre essas realidades são os livros, as pin-ups e o amor pelo fusca café com leite de seu pai.
Será nesses ambientes que ele irá experienciar o primeiro amor; o sexo; o jazz de Dizzy Gillespie; Willian Faulkner; Camus; as musas que encantaram e acalantaram tantos homens: de Audrey Hepburn e Rita Hayworth à fictícia pin-up “Giselle, a espiã nua que abalou Paris”; a ditadura militar; a pedra no peito; Paris e finalmente... Lígia. Tudo com bastante prosa poética e umas pitadas de humor.
O COMUNISMO
Toda semana, frequentava a escola dominical da igreja. Foi lá que ouvi, pela segunda vez, o termo comunista, de um amigo. A primeira partiu de uma conversa entre o meu avô, que era do partido opositor ao governo, comentando haver um ou outro desses infiltrado no diretório. Não dei vazão à percepção.
Mas, da segunda vez, atentei-me para o fato de que o comentário certificava a presença de um desses assassinos em nosso meio. Ele estaria escondido na casa de uma pessoa importante na cidade, fugindo da polícia. Ora, quem foge da polícia é criminoso, como o pernambucano apelidado de “Pernambuco”, que fazia serviços de pistolagem para uns fazendeiros no norte do estado e voltava para esconder-se, sempre, na cidade ao norte da minha. “Será que este tal comunista já matou muita gente?”, indagávamos uns aos outros. Fiquei dias encabulado com aquela história e com a curiosidade de saber quem é que escondia em sua casa um bandido de uma espécie tão perigosa: um comunista!
Mas, na realidade, nunca me contive ao enleio da retórica mal explicada; sempre cultivei a pesquisa. Ainda que precários os meus meios, e corpulenta a resistência a um assunto desses, precisava de fato saber que tipo de crime cometia um comunista. Mais me afetava o interesse pelo vernáculo do que pelo paradeiro do meliante.
Fui às revistas antigas do meu avô, em sua pequena, mas organizada biblioteca que ficava no escritório da loja, numa salinha de 16 metros quadrados, onde guardava também o cofre e as fotos antigas de sua saga, desde que saíra do nordeste para as bandas de cá. Umas fotos muito feias, onde aparecia minha avó, meus tios, meu pai, embaçados e mal acabados, com umas roupas horríveis, penteados nostálgicos e chapéus com aparência de velho. A única foto que me fazia quedar era a do meu avô com o velho Dr. Tomás, ao lado de seu Ford 28, um belíssimo automóvel conservado e bem cuidado, que me despertava a atenção, como se fosse real.
Tinha outra coisa me atraía demais, uma máquina de datilografar Lexikon-80, que eu já datilografava sem olhar, pois passei seis meses num curso de datilografia onde comecei aprendendo o “asdfg” numa máquina sem letras no teclado, pertencente à escola de D. Arlete, mulher do contador.
Havia também na biblioteca alguns clássicos como “Moby Dick”, “Iracema”, “A moreninha”, “Os sertões”, “Crime e castigo” e alguns trancados num compartimento com porta de vidro transparente, dos quais apenas conhecia os títulos. Eu era louco para ler um deles, entre os quais me lembro de “Madame Bovary”, “Flor do mal” e “Primo Basílio”. Também uma coleção vermelha de 12 volumes sobre mitologia grega e romana, e uma verde, da obra completa de Machado de Assis. Uma imensa e organizada coleção de “Reader's Digest” e da revista Manchete, que ele comprava sempre. Lembro-me que comecei a ler “Crime e castigo” e cansei, enjoei. É muito extenso para um garoto de 12 anos, eu pensava. Meu castigo foi quase um crime contra minha afinidade com a leitura. Meu avô me cobrou o final da história interpretada em uma semana. E se ele não lera toda a sua biblioteca, aquele livro ele havia lido, pois, na sua vaidade intelectual, sempre o citava entre os seus preferidos.
Foi lá que remexendo nas revistas antigas, no meio de livros mais velhos, encontrei um texto sobre o tal comunismo. Este, meu avô não encontrara quando, para não ter problemas com o regime, com firmeza pôs fogo em toda a literatura que possuía sobre o assunto, pesaroso ao sinal da ditadura. Era uma síntese que definia comunismo e anarquismos, com fotos e símbolos, escrito por um autor brasileiro de esquerda.
Firmei convicção de que então não era coisa de bandido. A minha confiança nos livros era quase cega. Aquela foice e aquele martelo ficaram cravados na minha mente de uma maneira desconfortável e ainda pouco explicável, diferente do símbolo da suástica que eu odiava, principalmente porque ao torturarem a “Giselle” – minha pin-up preferida, os nazistas a marcaram tatuando a fogo, em suas costas, aquela cruz gamada.
Um dia, comentei com o tio Manoel, que também trabalhava na loja, porque o símbolo do comunismo era a foice e o martelo. Assustado, ele me respondeu: “O comunismo é bem mais do que você pensa, e bem menos do que falam. Mas nunca mais toque nesse assunto”, enfatizou.
Dulce
Tentei de início a mais panfletária e autêntica representante de pin-up: a Dulce. Filha do coletor da cidade, a que dormira com o professor de fanfarra, com o filho do médico, com o médico, com o tio, com toda a cidade, menos comigo ‒ e que, mesmo assim, estava sempre sozinha, linda e recolhida a uns olhares sinóticos que me achavam. Assim eu queria achar, sem admitir que percebia sobreporem o meu ombro e irem além de mim. Olhar de solidão e sapequice, de solidão e carência, de solidão e inteligência, de solidão e rejeição, de solidão e sensualidade. Sempre precedida de uma solidão inexequível, inexorável.
Melhores respostas e mais concisas não ouvi, que de sua boca em perguntas públicas na sala de aula. Mais belos pelos loiros e fininhos pelos braços, pescoço e no buço não havia. O primeiro botão da sua camisa branca de uniforme estava sempre relaxado e aberto, expulsando os seios adolescentes fartos e ousados de baixo para cima. E ela distraída, mordendo a ponta do lápis, era qualquer coisa que lhe dava um ar inocente e irreal. E melhor penteado não havia que o seu, travado com a caneta Bic, replicando um desleixo de mechas caindo pelo rosto em ondas. E, aos meus olhos, quanto mais noticiado o número das suas fornicações mais me parecia bela e perfeita. Só de passar por ela no corredor da escola me fazia gelar o estômago, a espinha dorsal. Via nela uma incógnita, a precipitação do meu ideal de felicidade. Sabia que quando ela tivesse contato com a sensibilidade intelectual que eu julgava ter, desmoronaria toda em meus braços num tórrido amor hollywoodiano, análogo ao da Rita por Glenn Ford, em “Gilda” ou ao da Audrey por George Peppard em “Bonequinha de luxo”.
Contrariamente, não era Dulce que curtia o cinema, e sim outra menina, protestante, nascida no Texas e filha de um casal de missionários que dirigia a escola em que estudávamos. Certinha e compulsiva pelos livros do Albert Camus, como eu. A Beth, que tinha o nome de uma pin-up, sem o ser. Que, para minha eterna mágoa, lera Willian Faulkner em inglês e fizera referência a ele no grêmio da igreja protestante, antes mesmo que eu sequer o conhecesse.
Naquele tempo lembro-me que as mocinhas já usavam calças jeans apertadinhas, marcando a calcinha, que eram por moda muito pequeninas, e mesmo que eu quisesse observar em Beth esses sinais etários, jamais conseguira ver sensualidade em suas roupas. Chegava a ouvir comentários dos amigos, que também não viam, que “só pode usar ceroulas”. A não ser no dia da formatura da oitava série, quando apareceu com um suéter apertado delineando-lhe os seios e a saia justa mostrando as curvas e os tão perseguidos sinais que, somente bem depois, consegui admitir. Achei aquela sardenta muito linda.
Passávamos horas discutindo sob o padrão da ética protestante a que estávamos jungidos, os textos do Camus e outros autores que descobríamos com o passar dos dias, ouvindo “Chega de Saudade”, “Coisa mais bonita”, “Carolina” e outras músicas da bossa-nova e o jazz do Dizzy Gillespie, Duke Ellignton, Mile Davis e a madame Holliday, que eu ouvira pela primeira vez com ela, gravadas em fitas K-7, enquanto pensava em Dulce. Quem realmente me interessava era a Dulce, a inatingível, a pin-up, a que ditava a moda entre as moças mais avançadas do colégio. A que não me dirigia um olhar sequer, mesmo que eu achasse que seus olhares sinóticos me incluíssem. Sequer um insistente flerte eu conseguira firmar com os olhos dela, nas raríssimas vezes que tentei.
Um dia passei por ela e sua caneta caiu; mais que depressa abaixei, peguei e lhe entreguei. Disse-me obrigado como ao carteiro; como quem compra pão; como quem compra, paga e leva; como quem vê mas não vê; num automatismo desfigurante, numa frieza polar. Senti-me uma porta. Um nada. Um verme.
Soube que é médica, cardiologista, casada com o herdeiro de uma rede de supermercado popular, pastor protestante e gerente da rede. Nunca soube de mim e, pelo visto, largou de ser a pin-up dos meus sonhos de consumo. Se bem que sonho de consumo é meio abuso retórico, mas era o que era. Aliás, pergunto-me quando me lembro de tudo isto: será que ela deu para o professor de fanfarra? Para o filho do médico? Para o médico? Para o tio e para toda a cidade; menos para mim? Ela ficou tão certinha, madona e gordinha, que no fundo acho que só foi uma pin-up. O povo do interior é que fala demais, vê demais e fantasia demais. E eu, sendo do interior, absorvia demais. De fato, o que me restava era Beth, certinha, que gostava de coisas não certinhas.
Editora
...Acredito que o seu livro tem tudo para agradar, principalmente o público feminino, que ficará encantado com a linguagem poética, a sensibilidade amorosa e o seu olhar em direção à alma feminina.
...À medida que o leitor se envolve com os personagens e, principalmente com o protagonista, ocorre uma empatia tal, que a leitura passa a fluir de maneira deliciosa. E a forma como você vai tecendo (e revelando) o destino deles chega a ser surpreendente. Parabéns, pois nesse ponto você mostrou a maturidade de um autor experiente que não faz questão de entregar, afoito, toda a história.

Nenhum comentário:
Postar um comentário