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Mais-que-perfeito-simples



Sinopse

Nessa pequena novela, o protagonista ergue sua estrutura existencialista ambientada entre duas cidades fictícias e sem nome – uma ao sul e outra ao norte −; entre duas realidades nas quais a instabilidade financeira de seus pais lhe impõe convivência. Os pontos convergentes entre essas realidades são os livros, as pin-ups e o amor pelo fusca café com leite de seu pai.

Será nesses ambientes que ele irá experienciar o primeiro amor; o sexo; o jazz de Dizzy Gillespie; Willian Faulkner; Camus; as musas que encantaram e acalantaram tantos homens: de Audrey Hepburn e Rita Hayworth à fictícia pin-up “Giselle, a espiã nua que abalou Paris”; a ditadura militar; a pedra no peito; Paris e finalmente... Lígia. Tudo com bastante prosa poética e umas pitadas de humor.


Trechos

O COMUNISMO

Toda semana, frequentava a escola dominical da igreja. Foi lá que ouvi, pela segunda vez, o termo comunista, de um amigo. A primeira partiu de uma conversa entre o meu avô, que era do partido opositor ao governo, comentando haver um ou outro desses infiltrado no diretório. Não dei vazão à percepção.

Mas, da segunda vez, atentei-me para o fato de que o comentário certificava a presença de um desses assassinos em nosso meio. Ele estaria escondido na casa de uma pessoa importante na cidade, fugindo da polícia. Ora, quem foge da polícia é criminoso, como o pernambucano apelidado de “Pernambuco”, que fazia serviços de pistolagem para uns fazendeiros no norte do estado e voltava para esconder-se, sempre, na cidade ao norte da minha. “Será que este tal comunista já matou muita gente?”, indagávamos uns aos outros. Fiquei dias encabulado com aquela história e com a curiosidade de saber quem é que escondia em sua casa um bandido de uma espécie tão perigosa: um comunista!

Mas, na realidade, nunca me contive ao enleio da retórica mal explicada; sempre cultivei a pesquisa. Ainda que precários os meus meios, e corpulenta a resistência a um assunto desses, precisava de fato saber que tipo de crime cometia um comunista. Mais me afetava o interesse pelo vernáculo do que pelo paradeiro do meliante.

Fui às revistas antigas do meu avô, em sua pequena, mas organizada biblioteca que ficava no escritório da loja, numa salinha de 16 metros quadrados, onde guardava também o cofre e as fotos antigas de sua saga, desde que saíra do nordeste para as bandas de cá. Umas fotos muito feias, onde aparecia minha avó, meus tios, meu pai, embaçados e mal acabados, com umas roupas horríveis, penteados nostálgicos e chapéus com aparência de velho. A única foto que me fazia quedar era a do meu avô com o velho Dr. Tomás, ao lado de seu Ford 28, um belíssimo automóvel conservado e bem cuidado, que me despertava a atenção, como se fosse real.
Tinha outra coisa me atraía demais, uma máquina de datilografar Lexikon-80, que eu já datilografava sem olhar, pois passei seis meses num curso de datilografia onde comecei aprendendo o “asdfg” numa máquina sem letras no teclado, pertencente à escola de D. Arlete, mulher do contador.

Havia também na biblioteca alguns clássicos como “Moby Dick”, “Iracema”, “A moreninha”, “Os sertões”, “Crime e castigo” e alguns trancados num compartimento com porta de vidro transparente, dos quais apenas conhecia os títulos. Eu era louco para ler um deles, entre os quais me lembro de “Madame Bovary”, “Flor do mal” e “Primo Basílio”. Também uma coleção vermelha de 12 volumes sobre mitologia grega e romana, e uma verde, da obra completa de Machado de Assis. Uma imensa e organizada coleção de “Reader's Digest” e da revista Manchete, que ele comprava sempre. Lembro-me que comecei a ler “Crime e castigo” e cansei, enjoei. É muito extenso para um garoto de 12 anos, eu pensava. Meu castigo foi quase um crime contra minha afinidade com a leitura. Meu avô me cobrou o final da história interpretada em uma semana. E se ele não lera toda a sua biblioteca, aquele livro ele havia lido, pois, na sua vaidade intelectual, sempre o citava entre os seus preferidos.

Foi lá que remexendo nas revistas antigas, no meio de livros mais velhos, encontrei um texto sobre o tal comunismo. Este, meu avô não encontrara quando, para não ter problemas com o regime, com firmeza pôs fogo em toda a literatura que possuía sobre o assunto, pesaroso ao sinal da ditadura. Era uma síntese que definia comunismo e anarquismos, com fotos e símbolos, escrito por um autor brasileiro de esquerda.

Firmei convicção de que então não era coisa de bandido. A minha confiança nos livros era quase cega. Aquela foice e aquele martelo ficaram cravados na minha mente de uma maneira desconfortável e ainda pouco explicável, diferente do símbolo da suástica que eu odiava, principalmente porque ao torturarem a “Giselle” – minha pin-up preferida, os nazistas a marcaram tatuando a fogo, em suas costas, aquela cruz gamada.

Um dia, comentei com o tio Manoel, que também trabalhava na loja, porque o símbolo do comunismo era a foice e o martelo. Assustado, ele me respondeu: “O comunismo é bem mais do que você pensa, e bem menos do que falam. Mas nunca mais toque nesse assunto”, enfatizou.





Dulce

Tentei de início a mais panfletária e autêntica representante de pin-up: a Dulce. Filha do coletor da cidade, a que dormira com o professor de fanfarra, com o filho do médico, com o médico, com o tio, com toda a cidade, menos comigo ‒ e que, mesmo assim, estava sempre sozinha, linda e recolhida a uns olhares sinóticos que me achavam. Assim eu queria achar, sem admitir que percebia sobreporem o meu ombro e irem além de mim. Olhar de solidão e sapequice, de solidão e carência, de solidão e inteligência, de solidão e rejeição, de solidão e sensualidade. Sempre precedida de uma solidão inexequível, inexorável.

Melhores respostas e mais concisas não ouvi, que de sua boca em perguntas públicas na sala de aula. Mais belos pelos loiros e fininhos pelos braços, pescoço e no buço não havia. O primeiro botão da sua camisa branca de uniforme estava sempre relaxado e aberto, expulsando os seios adolescentes fartos e ousados de baixo para cima. E ela distraída, mordendo a ponta do lápis, era qualquer coisa que lhe dava um ar inocente e irreal. E melhor penteado não havia que o seu, travado com a caneta Bic, replicando um desleixo de mechas caindo pelo rosto em ondas. E, aos meus olhos, quanto mais noticiado o número das suas fornicações mais me parecia bela e perfeita. Só de passar por ela no corredor da escola me fazia gelar o estômago, a espinha dorsal. Via nela uma incógnita, a precipitação do meu ideal de felicidade. Sabia que quando ela tivesse contato com a sensibilidade intelectual que eu julgava ter, desmoronaria toda em meus braços num tórrido amor hollywoodiano, análogo ao da Rita por Glenn Ford, em “Gilda” ou ao da Audrey por George Peppard em “Bonequinha de luxo”.

Contrariamente, não era Dulce que curtia o cinema, e sim outra menina, protestante, nascida no Texas e filha de um casal de missionários que dirigia a escola em que estudávamos. Certinha e compulsiva pelos livros do Albert Camus, como eu. A Beth, que tinha o nome de uma pin-up, sem o ser. Que, para minha eterna mágoa, lera Willian Faulkner em inglês e fizera referência a ele no grêmio da igreja protestante, antes mesmo que eu sequer o conhecesse.

Naquele tempo lembro-me que as mocinhas já usavam calças jeans apertadinhas, marcando a calcinha, que eram por moda muito pequeninas, e mesmo que eu quisesse observar em Beth esses sinais etários, jamais conseguira ver sensualidade em suas roupas. Chegava a ouvir comentários dos amigos, que também não viam, que “só pode usar ceroulas”. A não ser no dia da formatura da oitava série, quando apareceu com um suéter apertado delineando-lhe os seios e a saia justa mostrando as curvas e os tão perseguidos sinais que, somente bem depois, consegui admitir. Achei aquela sardenta muito linda.

Passávamos horas discutindo sob o padrão da ética protestante a que estávamos jungidos, os textos do Camus e outros autores que descobríamos com o passar dos dias, ouvindo “Chega de Saudade”, “Coisa mais bonita”, “Carolina” e outras músicas da bossa-nova e o jazz do Dizzy Gillespie, Duke Ellignton, Mile Davis e a madame Holliday, que eu ouvira pela primeira vez com ela, gravadas em fitas K-7, enquanto pensava em Dulce. Quem realmente me interessava era a Dulce, a inatingível, a pin-up, a que ditava a moda entre as moças mais avançadas do colégio. A que não me dirigia um olhar sequer, mesmo que eu achasse que seus olhares sinóticos me incluíssem. Sequer um insistente flerte eu conseguira firmar com os olhos dela, nas raríssimas vezes que tentei.
Um dia passei por ela e sua caneta caiu; mais que depressa abaixei, peguei e lhe entreguei. Disse-me obrigado como ao carteiro; como quem compra pão; como quem compra, paga e leva; como quem vê mas não vê; num automatismo desfigurante, numa frieza polar. Senti-me uma porta. Um nada. Um verme.

Soube que é médica, cardiologista, casada com o herdeiro de uma rede de supermercado popular, pastor protestante e gerente da rede. Nunca soube de mim e, pelo visto, largou de ser a pin-up dos meus sonhos de consumo. Se bem que sonho de consumo é meio abuso retórico, mas era o que era. Aliás, pergunto-me quando me lembro de tudo isto: será que ela deu para o professor de fanfarra? Para o filho do médico? Para o médico? Para o tio e para toda a cidade; menos para mim? Ela ficou tão certinha, madona e gordinha, que no fundo acho que só foi uma pin-up. O povo do interior é que fala demais, vê demais e fantasia demais. E eu, sendo do interior, absorvia demais. De fato, o que me restava era Beth, certinha, que gostava de coisas não certinhas.





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Editora




H. Martins

H. Martins nasceu no ano de 1963. É poeta e romancista, advogado, ambientalista, consultor nas áreas de Direito Ambiental, Sustentabilidade e MDL para os setores público e privado. Escreve artigos na área ambiental e de desenvolvimento sustentável, além de ser autor dos livros de poesia “Unha e Carne”, “Vaso Chinês”, “Todas as Cores das Flores” e dos romances “Mais-que-Perfeito-Simples” e “Lábios que Beijei”. Na área ambiental escreveu “Método para Venda de Sequestro de Carbono”, “MDL – Uma composição Sustentável”, “Elementos para Concepção do Crédito de Carbono – Aquecimento Global”. Conferencista, esteve presente em congressos ambientais no Brasil, Ásia, África, América do Norte, América do Sul e Europa.




Comentários de leitores e críticos


...Acredito que o seu livro tem tudo para agradar, principalmente o público feminino, que ficará encantado com a linguagem poética, a sensibilidade amorosa e o seu olhar em direção à alma feminina.

...À medida que o leitor se envolve com os personagens e, principalmente com o protagonista, ocorre uma empatia tal, que a leitura passa a fluir de maneira deliciosa. E a forma como você vai tecendo (e revelando) o destino deles chega a ser surpreendente. Parabéns, pois nesse ponto você mostrou a maturidade de um autor experiente que não faz questão de entregar, afoito, toda a história.

Kyanja Lee








Lábios que beijei


Sinopse

Uma surfista de alma livre, acostumada com a brisa do mar, poderia adequar-se ao amor de um homem bem mais velho, provecto e estável? Eles se encontram no planalto central do país, numa cidade linda cujas asas inspiram liberdade − cenário que faz parte desse amor leve, embora improvável, até ser sacudido por enganos, ciúmes – mas sem jamais abandonar a poesia, mesmo na dor. O autor faz uso de nuanças descritivas tão plásticas que parecem reais. Uma linda história de amor que transita de forma suave sobre temas controversos, até conquistar totalmente o leitor.



Trechos



Prudence viu e foi vista por alguém na Arquitetura. Eles sentavam juntos, prancheta a prancheta, olhar a olhar, dedinho a dedinho. Tubos telescópicos encostados um no outro. Tiveram ciência bem cedo do compasso que os circulava; mediam a olho nu, sem escalímetro, a distância daquela atração. Ele, 21; ela, 23. Imantaram sem perceber os lábios e os olhos daquele indefectível tesão. Confundiram as línguas, ora em inglês, ora em francês, ora naquelas que lambiam um do outro o gosto das peles trocadas, sem tradução, consequência ou arquitetura. Que coisa doida foi aquele ficar. Ele tinha mais brincos que ela. Ela tatuou um cavalo-marinho acima do calcanhar. Ele não pagava nada. Ela pagava de tudo, dirigia, escolhia o pub, o bar e o pedido. Ele queria cantar rock e blues; ela só queria ser arquiteta. Léo e Prudence ficavam e ficavam.

Léo tinha uma namorada desde que chegara de Campo Grande – moravam juntos. Prudence nem namorado tinha. O que havia nela era um “deixar pra lá”, uma inconsequência e uma leveza que ninguém lhe tirava da pele, do dorso e do andar. As músicas de Léo eram ou muito progressivas, a ponto de Prudence não conseguir se atingir por elas, ou muito ruins. “Ele é melhor desenhando com a mão esquerda e direita, simultaneamente”, pensava Prudence. Ela logo perdeu o luxo de assisti-lo na guitarra sem o desempenho desejável. Tarefa de melhor adequação àquela que com ele vivia; não a ela, que só de quando em vez com ele ficava.

Todo mundo no curso apostava que iam terminar juntos, depois que viam seus beijos loucos para lá da cantina, ou dentro do conversível vermelho. Uns arriscavam um tempo. Outros latiam de inveja de ver um casal tão lindo, com seus corpos magros, matracando pulseiras nos quatro braços, cabelos nas costas, brincos aos montes, sandálias, tênis e vida. Ela não ia aonde ele estava – encontravam-se. Ele não a esperava jamais. Nunca marcaram um compromisso. Não perdiam tempo nisso. Viviam de se encontrar ao acaso, em festas, em bares, desmentindo agendas e calendários, em fugas sem itinerários aos locais de acasalamento mais próximos.

Nesse pique, Prudence foi levando aquela chama, sem drama, até seu próximo mar. Quando ficou de olho para as ondas do Arpoador, lembrou-se de seu primeiro amor. “O mar que explique a ele se eu quiser deixá-lo pra lá”, pensou. E ela de fato o deixou. Desconstituiu aquela antirrotina por uma rotina melhor. Desencontrou-se dele. Mudou de prancheta, de sala, de horários. Adotou uns óculos, um gato angorá e um cesto de coisas lindas e miúdas para decorar o seu quarto. Aplicou neste as lições que aprendera no minicurso de ikebana. Entrou como estagiária num grande escritório local, pois já estava no segundo ano do curso.

E quando Léo reparou na sua distância quase sem indiferença, não percebeu que havia muito ela não estava mais lá. Que ela não estava na “sua”. Foi tão incontestável e doce aquele antemão entre seus olhos, que ele nem consentiu a hipótese de um revival; conformou-se, sem vislumbrar espaço nenhum. Era muito orgulhoso para ouvir um não dos lábios que beijara. Do lado dela, no final do ano iria a Santa Catarina dropar umas ondas; pôr a prancha em linha e curtir a Praia do Silveira, em Garopaba; ficaria uns dias em Floripa e só voltaria no final de janeiro de 2005. Iria projetar novas formas lindas de amar.




Sexta-feira

Ao se observar no espelho, não via nenhum sinal externo de maltrato ‒ passara ilesa por todos aqueles anos sem nenhuma mancha ou cicatriz mais contundente no rosto, provocada por dias tão cheios de imprecisões. Calada, ouvia baixinho o som suave vindo de um aparelho chinês, uma espécie de macho reprodutor que espera a fêmea carregada de informações para se acasalarem e gerar um gemido tecnológico. Era em inglês que tocava, e a voz de Paul McCartney cantando Home (When Shadows Fall) tomava conta dos quatro cantos do quarto. Sentada na banqueta, vestida apenas de calcinha, e com as pernas cruzadas, mostrava ao espelho somente uma face da coxa e da panturrilha, onde um cavalo-marinho reinava em linhas retintas. Fixava os olhos para além de sua imagem, vendo refletido nele o quadro de uma bijin, uma gueixa, pintada com uma suavidade quase impossível. Refletia, além da beleza, o profundo significado e respeito que tinha por aquela gravura, como fosse um brasão ostentado no meio da parede nude, com desenhos quase diáfanos, imitando flor-de-lis – algo que somente papel de parede pode produzir.

Naqueles minutos transparentes de observação silenciosa, havia mais lembrança contida em seus olhos do que poderia suportar. Virou-se lentamente na banqueta amarelo-ocre e sentiu o odor agradável do próprio perfume embrenhado em seus cabelos e nos ombros, defumando ainda nas narinas arfantes e seletivas a lembrança da noite anterior. Olhou para o vestido de seda com estampa de leopardo, parecido com uma bata africana, que lhe caía até a metade das coxas douradas e roliças. Planejou-o para lhe cobrir o corpo assim como estava. Levantou-se e jogou-o como um paraquedas sobre a cabeça; este escorregou com facilidade no corpo fino e desenhado. Com os dedos para trás, ajeitou a pequena lingerie branca entre os glúteos, pintou a boca, aspergiu no ar o mesmo perfume do dia anterior ‒ ficando debaixo do chuvisco de odor até se sentir levemente tocada por ele ‒, calçou uma chinelinha rasteira de couro com cristais swarovski e desceu para almoçar.

Olhava para baixo enquanto caminhava, observando o desenho das pedras portuguesas que se alinhavam no sentido do restaurante bem próximo dali, tentando não se cansar e não suar, visto que o calor era impraticável. Só honraria aquele encontro porque suas amigas já a estariam aguardando àquela hora. “Já devem estar sentadas à mesa”, supôs ao erguer o braço esquerdo em ângulo reto e observar as horas no relógio de aço, com caixa de 40 milímetros, que apontava para 1 da tarde em ponto. Ainda houve tempo de se esquivar da súbita pressa que lhe ocorria e identificar na vitrine da boutique, antes do ponto de travessia da rua, um biquíni lindo, com motivos leves e cores cítricas, mas de bom gosto. Perdeu mais alguns segundos ali, até que se enveredou pelo rumo do restaurante, do outro lado da rua.

Dora e Aninha eram suas amigas e sócias no negócio. O encontro precedido do almoço era para discutirem um trabalho a fazer: como vestir de maior feminidade aquele trabalho executado por homens.

Dora, com seu biótipo para gordinha, tinha insistente volume de argumentos para experimentarem a moqueca de peixe com camarão. Já ouvira falar que era saborosíssima e argumentava que, sendo a mais gordinha dentre as três, era, portanto, a mais capacitada para opinar. Pois, de fato, seria ela quem realmente comeria a maior parte do servido. Riram-se dessa admissão tão capciosa da colega.
Coisa de sua cabeça, pois, linda, ressaltava naquela tarde e no sorriso constante as maçãs do rosto protegidas por longos cabelos lisos que as cortinavam. Serviam-lhe ainda grandes olhos verdes que expressavam o lume de uns matizes estranhos, que não se conhece muito havidas do verde. Meio floresta molhada às cinco da tarde, quando o sol se avisa indo. Além do belo corpo torneado por curvas esculturais, que ela apertava no jeans e na blusa, ressaltando o colo dos fartos seios que lhe subiam. Lembrava uma linda árabe.

Aninha, meio delgada e um pouco esquálida, era bem divertida também. Quase riponga, vestia-se de uns motivos indianos que lhe caiam até os artelhos, quase arrastando. Usava umas pulseiras de couro e miçangas trançadas nos punhos e nos tornozelos, e ostentava no braço esquerdo uma tatuagem de 360º, imitando cerâmica marajoara. De Belém do Pará, premiava a todos com seu identificado dialeto ‒ já meio contaminado com as gírias locais ‒, o exprimido desabafo resumido na repetida palavra “égua”. Projetava construir um hotel totalmente sustentável na floresta.

Prudence, que acabava de chegar, tinha 30. Seu olhar profundo e meio triste estampava, paradoxalmente, uma contradição inequívoca do sorriso polido que emprestava ao se dirigir às pessoas. Requintada, vestia-se com uma elegância trivial, percebida pela escolha das peças, cores e acessórios. Tudo não muito barato – quase caro. Não conseguia esconder, contudo, um ar lacônico e meio misterioso, caracterizado pelas poucas palavras que escolhia para se expressar, das quais fazia econômico uso.
Era quase alta e linda. Tanto que já fizera fotografias de corpo inteiro, reproduzidas e estampadas em propagandas de outdoor, para a campanha de uma grife de roupas de praia – mas não era seu negócio. Quando se viu ali, notificou-se a si mesma que mais se conhecia por dentro do que por fora. Assustou-se em se ver tão exposta por uns poucos trocados que recebera da agência. Entretanto, no fundo lhes descerraram os argumentos, inabilitada pelo fio de vaidade que lhe supitou dos olhos, ao se ver ali tão linda.

Naquela tarde, trouxe à mão um ipad e um livro de capa branca, para ler um trecho para as colegas. Este, já um pouco amarelado, trazia na capa uns ideogramas pintados em vermelho, intitulado “O País das Neves”, do escritor japonês Yasunari Kawabata. Dele não se apartava mesmo depois de haver lido mais de uma vez. Por mais de uma vez também dissera não às colegas que o pediram emprestado ao ouvi-la relatar certos trechos, em conversas triviais. Mentia sempre ainda o estar lendo. Descobrira-o, não por acaso, indicado por um amigo.

Comeram o prato escolhido por Dora e ficaram divididas, cada qual com suas opiniões diversas, até o arrefecimento das energias e a conciliatória conclusão sobre a apresentação do trabalho. “A Aninha tem mais jeito e mais dom para a coisa – ela apresenta as fotos das meninas e eu organizo as mídias para o site”, sentenciou Dora, depois de quatro caipirinhas.

Porque Prudence quase não bebia e pouco falava, mais ouviu do que se manifestou acerca de Dora e Aninha em suas bobagens e confissões que brotaram depois do trabalho decidido e de algumas caipirinhas de kiwi. Riam muito de tudo.

Aninha, que se mostrava experiente em questões transcendentais, sexo tântrico e outras parafernálias da moda, falava e explicava com eloquência sobre a busca do prazer e a dificuldade de se encontrar um amante à altura de sua expectativa mística. “Os homens são cruelmente carnais e imediatistas, principalmente os jovens e bonitinhos”, argumentava em tom cerimonial e satírico. “Meu último namorado experiente tinha quase 60, e acho que a excepcionalidade do seu sexo não se deveu ao meu argumento tântrico, mas à sua condição física e experiência no traquejo da coisa”, insistia Aninha em sua vocação empírica.

‒ E o Igor? ‒ perguntou Dora.

‒ Ele é namoro sério, tem muito mais coisa em jogo para recompensar. ‒ Riram demais dessa convicção quase consternada de que o amor vai além do sexo.

Dora, que se achava gorda, mais uma vez revelava a dificuldade em encontrar homens:

‒ Principalmente porque há uma padronização mercadológica e sectária, que resolveu afastar do universo da beleza as mulheres gordas. Ou gordinhas.

‒ Acho que não falta homem pra você, Dora; o que sinto é que você é quem os repele ‒ retrucou Aninha.

‒ Até porque você não se enquadra no padrão das gordas, mas sim das gostosas e com carne pra pegar ‒ refutava Aninha, sem qualquer vizinhança com a hipocrisia, pois de fato ela era, de longe, uma mulher feia e sem atrativos físicos.

Entretanto, Dora continuava condensando argumentos para justificar sua baixa autoestima.

Enquanto as ouvia, Prudence via passar um filme na memória. Tanta coisa se passara até então; tanto engano involuntário. Somente aquele amor não lhe saía do coração. Sentia saudade, muita falta de Ângelo. Do que depreendeu da noite anterior foi muita coisa perdida no esvão, sem que houvesse discernimento ou explicação. Parecia que tudo estava realmente acabado.

‒ E você, Prudence, como está com ele? ‒ questionou Dora.

‒ Somente o tempo dirá – respondeu Prudence, enquanto arrancava um suspiro da alma.



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H. Martins

H. Martins nasceu no ano de 1963. É poeta e romancista, advogado, ambientalista, consultor nas áreas de Direito Ambiental, Sustentabilidade e MDL para os setores público e privado. Escreve artigos na área ambiental e de desenvolvimento sustentável, além de ser autor dos livros de poesia “Unha e Carne”, “Vaso Chinês”, “Todas as Cores das Flores” e dos romances “Mais-que-Perfeito-Simples” e “Lábios que Beijei”. Na área ambiental escreveu “Método para Venda de Sequestro de Carbono”, “MDL – Uma composição Sustentável”, “Elementos para Concepção do Crédito de Carbono – Aquecimento Global”. Conferencista, esteve presente em congressos ambientais no Brasil, Ásia, África, América do Norte, América do Sul e Europa.




Comentários de leitores e críticos


Fico sempre encantada com a maneira como você cria personagens femininos fascinantes. E também com a sua forma peculiar de construir narrativas com flashbacks, mostrando diferentes momentos da vida dos personagens. Ao executar essas costuras intrigantes de cenas do passado (não necessariamente tão lineares e cronológicas assim), acaba exigindo mais de seu leitor. Mas o resultado final é sempre bastante interessante!

Kyanja Lee