A poética das quimeras




Sinopse

Eis o espelho das falazes esperanças em suas últimas luzes de encanto e em seu enegrecer inexorável. A Quimera ambígua é pressentida pelos versos frementes que, ao mesmo tempo que sonham alentados, sangram agônicos em meio aos horrores colossais que os envolvem... A Quimera é o futuro que, quando desfeito em juncos secos, torna-se um abismo de dor em perscrutação.

Sendo ofício litúrgico embebido nas antíteses do coração, esta Poética é um descobrimento do além-ser - incessantemente neste ponto - e uma reza ao afã que nos arrasta por entre os dias que passam e deixam rastros feiticeiros. O culto ao cataléptico aparecer dos espectros passados faz de cada ser um dominador de suas próprias gangrenas.

A busca contínua pelo verso, pelas ânsias e pelas dores terrenas e astrais é o ofício poético afagado por suas maiores Musas. E espera o poeta que o estro de serventia seja aos que, das Quimeras, sorvem o bálsamo.


Trechos

De ti

De ti, não serei sequer a esperança
Que conforta o tristonho coração;
Não serei nem uma terna lembrança
Que aos teus olhos diga paixão.

Não serei à tua fronte a aurora
Que no firmamento ternamente sorri;
Nem vaga memória serei... embora,
Tudo a mim lembre de ti.

Não serei sequer um devaneio risonho,
Um verso, um hino, um canto;
De ti, não serei sequer um sonho
Que celebras em contente pranto.

O sorriso que languidamente fulgura,
Os olhos que riem, eu não serei de ti;
Embora, em toda manhã pura,
Tudo, por tua causa, alegremente ri.

De ti, não serei do peito o alento
Nem o que move a tua doce alma;
Sequer serei um belo sentimento
Que aos teus tristes anseios acalma.

Não serei o que pulsa no teu seio,
Sequer o reflexo das lágrimas que perdi;
Porém, meu anjo! Meu alegre devaneio!
Bem sabes que meus versos, minh'alma são de ti!...

21/03/2010



Para além

Quando, dos véus da morte para além,
Os fantasmas cadavéricos do amor
Sorrirem negros para ti, com desdém,
Tal como trataram o coração de fulgor,
De encantos e ilusões sem...

Quando, já na torva tumba desejada,
Tiveres, enfim, teu descanso eterno,
Verás negros anjos em torno d'alvorada,
Em meio ao Lume divino, terno,
Rindo de tua derrocada...

Quando da vida já cessarem os sonhos,
E somente os da morte poderes sonhar,
Verás a cripta de tu'alma, e tristonhos
Serão teus passos lentos a arruinar
A tumba dos astros risonhos...

E quando te vires da morte na solidão,
Sentirás que, pr'além da vida taciturna,
Nada mais há que a triste negridão
Da tão conservada e sagrada Urna
Dos Sonhos do teu coração...

25/07/2010




A um espírito

Triste, para sempre desolado,
Tu vais como um sopro afogado
Buscar no Templo do nada, do vão,
Como o sol a secar o vil prado,
O que não há em teu coração...

Para sempre vazio, esvaído,
Tu vais seguindo o rastro perdido
Do sonho bom, dos amores mortos,
Como que se fosses o Céu querido
Dos finados almos, em livres portos...

Mas para quê? Segues a caminhada
Qual solitário sem alvorada...
Para sempre sorrindo à ilusão,
Invisa luz jamais sepulcrada,
Que deleita-se em teu coração...

02/08/2011



Ambiguidade

Morreste... E ao teu saimento
Dobra a procela no céu.
E os astros – olhar dos mortos -
A mão da noite escondeu.
- Castro Alves



Quando pela noite sonho contigo,
Em fulguroso abrandar de dores,
Uma lembrança triste dorme comigo
Junto com a ânsia de serenos amores.

Quando o sonhar belo leva consigo
O negror dos tétricos amargores,
Desponta, porém, do peito no jazigo
Mais pálidas luzes, agonias, ardores.

Talvez n'alma brilham os dolentes rastros
Que tu deixaste ao partir para os astros.
Quando sonho contigo, em esperança vã,

Talvez lembra-me o luto da saudade...
Abrandando, porém, a obscuridade
Do desejo de não querer um amanhã!...

10/04/2010



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Caio Cardoso Tardelli

Caio Cardoso Tardelli nasceu em São Paulo, Capital, a 22 de Maio de 1990. Estreou com o livro Poética das Quimeras pelo selo Futurarte, da Editora Multifoco. Figurou com três poemas na antologia Ecos da Alma, da Andross Editora, e um poema em Âmago, da Editora Regência. Foi escolhido para figurar com três poemas no livro do IV Concurso Literário de Presidente Prudente. O seu soneto Fadário ficou com a terceira posição no XXII Prêmio Moutonnée de Poesia. Acompanhe o escritor nos endereços:

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