
Uma dicotomia visceral entre a vida e a morte leva uma legista, separada há três anos do marido, a ansiar novamente por um relacionamento. Desde então, ela tem convivido mais com seus cadáveres do que propriamente pessoas de sangue quente.
A frieza que por conta disso se instalara em seu coração, não a fará almejar um relacionamento convencional, mas, antes, alguém que possa como que reprogramar o código genético atormentado de todas as suas células. Sua química interna clama por um amor intenso. Afinal, para quem trabalha tão de perto com a morte, a hipocrisia é a pior das tormentas. Abominável seria perder tempo com mentiras. Traições. Falsos maneirismos sociais.
Afora o apreço incondicional pela morbidez, toda essa saga se torna vertiginosamente mais densa, sombria, pontuada que também está pelo imaginário com que a legista, desde criança, passara a deturpar as fábulas infantis que ouvia de sua mãe. Desde a mais tenra idade, habituara-se a incorporar as personagens mais rabugentas, para ela injustamente confinadas à alcova por esse mesmo falso moralismo, e que tanto turva o caráter dos homens.
Em meio a essa nevoenta odisseia em busca de um amor, a legista ainda se vê surpreendida por uma trama obscura, perigosa, envolvendo irregularidades no próprio IML, onde trabalha. Com um apurado senso de justiça, fruto mesmo dessa sua profunda ojeriza a falsidades, e confiando pouco na operacionalidade da polícia, outrora envolvida em escândalos dentro do próprio IML como mercenários de organizações criminosas, ela tentará criar um audacioso plano para desvendar o covil corrupto que, afinal, pode estar se alojando dentro da maior morgue do país. Contudo, por não se impor limites, a um dado momento a legista irá questionar se todo esse seu cáustico empreendimento não passa de devaneios tresloucados de sua própria mente.
Negro Amor se insurge assim como uma fábula às avessas, em que a realidade e o sonho se confundem abruptamente, mas, sobretudo, como um contraponto vertiginoso às organizações clandestinas que se apoderam do poder público como se este fosse um cancro condenado, a quem todos se dão o direito de corroê-lo, cegos que estão em sua nefanda sede pelo poder.
“O amor é a mais letal das armas”
(Zhang Yimou)
Esta é a epigrafe com que se inicia o romance Negro Amor, ao que o leitor já pode intuir um pouco sobre a história de amor contundente e incomum, regada ainda de suspense, que o aguarda neste livro.
Trechos
Não sou do tipo que sai por aí pulando de precipícios, escalando montanhas íngremes, engolindo lâminas afiadas, andando sobre brasas. Minha sina, talvez, seja até mais perigosa. Desde que me lembro por gente, tenho necessidade de escarafunchar o lado negro do outro. Conhecer de perto, à proximidade do toque, a tormenta que grassa o coração de uma pessoa. Descobrir o pior de seu desespero. Seus medos. Suas obsessões. Preciso benzer-me com a saliva irada do meu interlocutor enquanto assim me vejo refletida em sua loucura, até sorver o lado mais profano de suas elucubrações. Para depois, e só depois, conhecer o seu lado afetuoso. Terno e carismático.
Construir a própria moral é um caminho tortuoso, mas igualmente libertador. Por essas e tantas outras a ideia que faço, como toda garota um dia já fez de um príncipe encantado, é meio deturpada. Meio, não. É completamente estapafúrdia. Já passei por diversos relacionamentos para saber que não existe essa conversa fiada de cara-metade. É mais uma artimanha do marketing para vender revistas a casais em crise e adolescentes açucaradamente apaixonadas, que se prestam ao ridículo de responder testes estúpidos do tipo qual a sua reação ao encontrar um ex de bermuda acompanhado de uma loura estonteante. E o que pensaria de um sujeito que, no primeiro encontro, veste meias amarelas: ele a excita, a enoja, surpreende-a pela audácia ou desperta em você uma incontrolável vontade de passar por cima dele com o carro?
Príncipe encantado, uma ova. Devo, contudo, confessar uma coisa. É nisso que venho pensando, obstinadamente, nas últimas semanas. Parece que ando novamente sensível aos assuntos do coração. Desde que me separei do meu marido, não me apaixonei por nenhum outro homem. E isso, hoje, faz exatamente três anos. Achei, portanto, que era hora de tomar alguma atitude. Também poderia assim aproveitar melhor o resto de minhas férias. Ainda não sei se posso chamar de atitude ou desforra. Mas já estou decidida. Daqui em diante quero testar os homens. Se for preciso, irei provocá-los. Humilhá-los. Quem sabe até torturá-los? Os homens afinal não passam de uns canalhas. As mulheres, também. Uma autora com ojeriza a moralismos quem escreveu isso. Histórias sórdidas ainda são uma das poucas coisas que me dão prazer na vida, afora o meu trabalho. Como dissecadora, nenhuma outra profissão teria sido mais apropriada a uma garota que crescera reinventando finais cada vez mais trágicos, sanguinolentos, para as histórias da carochinha.
Pontos de venda
Cultura Travessa Siciliano Livraria do Espaço Itaú (rua Augusta, 1.745)
Ricardo Bellissimo
Escritor, jornalista e historiador, Ricardo Bellissimo possui publicada a novela Libido Siamesa (pela qual recebeu o prêmio, em primeiro lugar, no I Festival de Literatura Universitária/98, aberto a universitários, mestrandos e doutorandos de todo o Brasil), patrocinado pela Editora Livro Aberto (RS);
Possui também publicados os romances:
- Sombras e Nefastos (2003);
- Sufoco (2008);
- Negro Amor (2011);
(todos os livros acima citados foram editados pela Editora Via Lettera / São Paulo - SP);
* Como dramaturgo, adaptou o livro Você Nu entre Quatro Paredes, de Newton Cardoso, para o teatro (2004);
* Está sendo atualmente considerado como O TARANTINO DAS LETRAS, em virtude da contundência de seus últimos dois thriller lançados, Sufoco e Negro Amor;
* Criador do blog Necrosados, em que abre espaço aos sofredores de amor para que estes expressem a dor do abandono, paixões não-correspondidas, ao que o autor lhes responde às suas dúvidas e angústias entre outras mazelas amorosas, primando por uma linguagem tragicômica;
* Como jornalista, desenvolve críticas de arte para cinema, exposição, teatro, fotografia, música em revistas e sites especializados;
* Como historiador, realiza trabalhos de pesquisa em teses historiográficas na Universidade de São Paulo (USP) visando a sua respectiva informatização em bancos de dados, além de aulas particulares de história e português (redação e gramática);
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Possui também publicados os romances:
- Sombras e Nefastos (2003);
- Sufoco (2008);
- Negro Amor (2011);
(todos os livros acima citados foram editados pela Editora Via Lettera / São Paulo - SP);
* Como dramaturgo, adaptou o livro Você Nu entre Quatro Paredes, de Newton Cardoso, para o teatro (2004);
* Está sendo atualmente considerado como O TARANTINO DAS LETRAS, em virtude da contundência de seus últimos dois thriller lançados, Sufoco e Negro Amor;
* Criador do blog Necrosados, em que abre espaço aos sofredores de amor para que estes expressem a dor do abandono, paixões não-correspondidas, ao que o autor lhes responde às suas dúvidas e angústias entre outras mazelas amorosas, primando por uma linguagem tragicômica;
* Como jornalista, desenvolve críticas de arte para cinema, exposição, teatro, fotografia, música em revistas e sites especializados;
* Como historiador, realiza trabalhos de pesquisa em teses historiográficas na Universidade de São Paulo (USP) visando a sua respectiva informatização em bancos de dados, além de aulas particulares de história e português (redação e gramática);
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Comentários de leitores e críticos
NEGRO AMOR - (O Amor Nasce das Trevas )
Negro Amor, do escritor paulista Ricardo Bellissimo, é um livro visceralmente arraigado no universo feminino, sobretudo ao que condiz à mulher dos dias de hoje, atualizada, moderna e independente. Com uma narrativa ao mesmo tempo lírica e bruta, radiografa de forma abissal o imaginário mítico por trás da alma feminina em sua incansável busca pelo amor. Uma narrativa muitas vezes dura e direta e que mudará a relação das pessoas, em especial a das mulheres, com a literatura até então produzida em nosso país.
Um livro que disseca ainda – como, aliás, a própria protagonista do livro, retratada aqui através da personalidade contundente de uma legista - os ardorosos caminhos que algumas mulheres enfrentam em sua trevosa odisseia a fim de encontrar o homem que possa melhor compreender os seus anseios, tanto no campo afetivo, sexual, psicológico quanto cultural.
Misturando ainda boas doses de humor ácido a momentos de melancolia poética, Negro Amor se conflagra como exemplo de que a mulher jamais deve esmorecer nessa sua luta, por mais difícil que esta seja, e de certo também a mais intuitiva de sua vida. Como recompensa, no entanto, poderá alcançar a profunda paz de espírito que só uma relação madura consegue proporcionar.
A junção de todos esses insumos faz enfim deste livro uma excelente dica literária, inusual, e que, ao prezar por uma criteriosa qualidade linguística, agradará, sem decepções, todas as leitoras, mas também os leitores do sexo masculino, que assim terão uma brilhante oportunidade de dissecar a alma de uma mulher.
NEGRO AMOR (O Livro e o Autor )
Negro Amor é um livro bastante contundente, o que, aliás, justificam as sérias dificuldades que o autor enfrentou em sua pesquisa para a elaboração do mesmo, tanto no IML de São Paulo como na Academia de Polícia Científica deste mesmo Estado, ao que se deparou com inúmeros mistérios que assolam ambas as instituições.
Creio, ainda, que na esteira desses filmes e livros em que agora se deturpam a moral das fábulas infantis, Negro Amor parece ir além de uma ânsia pela verdade dos instintos humanos, à medida que faz de nossos mais escusos desejos um ardoroso percurso para iluminar melhor um entendimento de nossas mais profundas raízes psíquicas, sobretudo nesta complexa e difusa contemporaneidade em que vivemos.

Adorei este romance Negro Amor, tem uma mistura muito boa de drama, comédia, tragédia, poesia, escatologia e muito amor e suspense. Quero ler agora todos os outros livros desse escritor. Parabéns para a literatura brasileira. Bjs, Sylvia Cinara (Rio de Janeiro - RJ)
ResponderExcluirAinda não li, mas estou lendo Sufoco e adorando! Sombras e Nefastos é incrível! A acidez e a maneira que Ricardo Bellissimo narra é intrigante e envolvente. Abraços
ResponderExcluirEu já li Negro Amor, e fiquei realmente impressionado com a turbulência da narrativa, que às vezes varia a cada parágrafo, num ritmo que vai te deixando ansioso para ver aonde toda a história vai parar. Eu tb já li Sufoco, do mesmo autor, e tive a mesma impressão, essa sede por páginas, pq tanto Negro Amor como Sufoco primam pela total falta de obviedade. São livros que nem se pode sequer imaginar como irão acabar. Fico feliz de saber que o Brasil tem um escritor dessa grandeza. Abs Sergio (sampa)
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