
Diáhlogos com Hagá É, definitivamente, uma obra de humanidade.
editora Pihmentel
DJALMA - Bem...eh...Bom, quer dizer...Estou sem saber o que dizer, não é? Nunca ouvi falar disso...Quero dizer, assim, dessa forma.
RICK - Compreendo sua estupefação. A tese é que o espírito, em sua integridade e individualidade, não existe sem antes ter havido um corpo que o tenha gerado.
DJALMA - Então, essa história de reencarnação você está batendo o martelo que não existe?
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DJALMA - Espera aí, velhão, diga mais, aí. Quer dizer que o espírito é discurso. Que o corpo é a fase larval da vida. O espírito individualizado e com personalidade tem início com o nascimento do corpo. Os anjos..., bem, o mito angelical é um exemplo de acesso do raciocínio mítico a recantos onde a razão ainda não tem acesso, e que, talvez, expliquem, de alguma forma, a situação das crianças que morrem ainda nessa fase da vida.
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RICK - Não é enrolação, não, meu pai, sossegue. Olhe, vou dizer, o espírito pode, sim, desaparecer...
DJALMA - Aí lascou, quem queria viver uma eternidade de glórias e investiu velas, rezas e promessas para isso, teria comprado um engodo?
RICK - Você hoje está que está, hem? Apressado, agoniado...Segura aí, cara. É o seguinte, não podemos falar da morte de um espírito, assim, como se fala da morte de um bezerro. A coisa tem outra formatação. Temos que recapitular e dar nossos pulos para entender um pouco o processo.
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RICK (...) Assim, Djalma Vasconcellos Grandson, seguramente, nunca foi Napoleão ou D. João VI. Napoleão foi culturalmente Napoleão e assim por diante. Muitos dos discursos que o formaram já são outros. Ou seja, não intervirão mais em novas pessoas de forma a ser possível a formar outro Napoleão, idêntico, com os mesmos sentimentos e mesma visão de mundo.
Sua sensação de viver, que consiste na fase sempiterna do espírito, pode e vai ressurgir em qualquer ser, inclusive humano. Seu complexo de discursos, que é a fase semieterna do mesmo espírito, este sim, definirá a pessoa de Napoleão para todo o sempre, enquanto existir a humanidade nos termos atuais. Não se preocupe se agora está um pouco confuso. Voltaremos a conversar sobre as fases do espírito e você entenderá melhor.
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DJALMA - Rick, esse discurso seu é espantoso. Muita gente vai cair matando. Você está indo de encontro a discursos religiosos milenares. O dia do julgamento final, a depuração do espírito nas diversas reencarnações, o paraíso, a justiça divina, Jesus Cristo em sua ressurreição ao terceiro dia, como é que você diz que isso tudo persiste?
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RICK – (...) Manuel, por favor, pelo que já vivenciamos por aqui, você viu algo que contrarie minha tese?
MANUEL - Não, Rick, Não, vá em frente. Não tem nenhum manual publicado por aqui (risos), mas não tenho como contestar nada do que você tem colocado (...).
RICK - É claro. Não é pelo fato de estarmos nesta fase, que somos os donos da verdade e que detemos todos os conhecimentos do mundo. Seria uma imbecilidade pensar assim (...).
DJALMA - Pelo que vejo, você vai descambar na reencarnação dos espíritas kardecistas. Aquela história já batida de sempre, o garoto morre, reencarna como filho ou pai do algoz etc etc.
RICK - Eu não tenho toda a ciência do mundo, até porque conhecer tudo é muita pretensão, mas essa concepção da reencarnação kardecista, apesar de não estar de toda equivocada, também tem seus mitos.
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MANUEL - É o seguinte, sei lá, acho vocês estão viajando demais. Não, claro, eu sei que tem muita coisa nova e interessante, que eu nunca tinha ouvido falar. Mas tem outras que vocês estão viajando.
RICK - A viagem é uma só, Manuel. Entenda que o que o que eu estou falando é coisa sentida e pensada. Não sou a grande enciclopédia do mundo. Tenho cá minhas explicações e reflexões para o que tenho vivido com os últimos acontecimentos. Você pode ter as suas e eu respeito. Agora uma coisa é fato, se você tem uma formação religiosa muito intensa é óbvio que não vai ter muita liberdade para pensar o mundo em outras bases que não seja a de sua formação.
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RICK - Da mesma forma, não há como se imaginar o mundo dos encarnados, racionais, sem o os desencarnados e vice-versa. Somos ideia e viajamos no que se entende por imaginário da humanidade. Somos parte do arquétipo que Jung falou, habitamos os inconscientes, compomos o inconsciente coletivo. Isso pode parecer pouco romântico, cruel até, mas não é. Você, ainda encarnado, queria entender seu ente querido desencarnado como um plasma flutuante, gozando as delícias do paraíso? Não, não é bem por aí, sinto muito se causei alguma decepção.
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RICK - Meu pai, (...) O que acontece é que criaram como que um avatar para a divindade que querem adorar. Deus é isso, Alá é aquilo, o orixá é dessa forma, agem assim e assado, têm esse ou aquele atributo. Com esses aparatos, ficam viajando na maionese para reparar os buracos que as teses dogmáticas que sustentam sua fés criaram.
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RICK - (...)O espírito desencarnado difere muito pouco dessa massa de informações, sentimentos e conceitos que detemos em nossa mente. Se compreendermos dessa forma, podemos conceber com muita clareza que a hóstia é o corpo de Cristo. Seria o corpo de sua doutrina, parte integrante de seu inconsciente, cujo conhecimento é, ou deveria ser, de todos os fiéis e que, no momento da comunhão, deve se tornar ainda mais vivo em suas mentes. Assim, na hora da comunhão eles devem mentalizar as ideias de Cristo, com seriedade e na frequência correta. Ao fazer isso, eles conversam com o próprio Cristo, como você está falando comigo agora. Nesse sentido, a hóstia é, sim, o corpo de Cristo, como querem os cristãos, pois pode ter o condão de trazer o verdadeiro Cristo em suas mentes; isso só vai depender da vibração e pureza de sentimento de cada um. Este nosso papo é um grande exemplo da realidade fática do que eu estou falando.
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RICK - Jesus Cristo? Hoje, Jesus Cristo tem tantos discursos atribuídos a ele, tanta intolerância, tanta inflexibilidade de entendimento embasados em interpretações absurdas de sua fase semieterna, que se ele voltasse à baila na vida encarnada, com base no que falam dele, ele mesmo não mais se reconheceria.
As religiões são utilizadas pela imensa maioria das pessoas, não como um locus de desenvolvimento pessoal e comunitário, mas como um objeto de superstição.
Editora Pihmentel
Henrique Soares Jacobina: Estudante de direito e sociologia (UCSAL e UFBA), amante das artes, sociologia, filosofia e rock and roll. Desencarnou em uma quinta-feira do mês de novembro de 2012, vítima de um acidente automobilístico, em frente a um dos maiores shoppings de salvador -Bahia. Não era afeito a religiões, tampouco se autodenominava ateu. Conheça mais sobre Henrique nos links do show magia no Youtube e no Memorial Jajá.
Djalma Vasconcellos Grandson (Djalma Jacobina Neto): Escritor, formado em filosofia, engenharia, graduado e pós-graduado em direito, premiado em 1998 em concurso internacional promovido pelo Centro Interamenricano de Administraciones Tributárias - CIAT, com a temática da motivação no ambiente da Receita Federal do Brasil, onde trabalha como auditor federal concursado. Autor de vários livros como Triéquis (2004, edição esgotada), O Trem da Oportunidade (2005, edição esgotada), Provocações Poéticas (2009), Joaquim Nabuco de Brasília Amarela (2012), Avalanches e Travessias (2013), Diáhlogos com Hagá (2013), Pohemas com Hagá (2013). Os dois primeiros pela editora Contexto e os demais pela editora Pihmentel.
Tenho acompanhado e apoiado a carreira de escritor de Djalma Vasconcellos Grandson e a cada obra tenho uma grata surpresa. Surge-nos, agora, Diáhlogos com Hagá, uma obra feita em parceria com o espírito de seu filho Henrique Soares Jacobina, desencarnado em novembro de 2012, aos 21 anos de idade, em um grave acidente de carro. Um fato, portanto, que teria o condão de jogar na lona o mais forte dos mortais, com ele tomou outra conotação.
Em Diáhlogos com Hagá, longe dos clichês das obras psicografadas, Henrique fala ao pai com altivez, segurança e perspicácia sobre dogmas intocáveis das religiões assentes. Revela-nos coisas inéditas, a exemplo da verdadeira natureza do espírito, sobre a origem do amor e acerca da composição e das resultantes das forças cósmicas.
A conversa, aqui e ali, é entremeada de paralelos com conceitos de grandes luminares do pensamento como Schopenhauer, Nietzsche, Jung, Foucault, Rousseau.
No trajeto do diálogo, eles encontram contrapontos de Manuel, outro parente desencarnado recentemente e que era um expert em religiões reencarnacionistas, com destaque para o kardecismo. Outros espíritos se envolvem para confirmar a veracidade do ambiente, mas não chegam a conturbar a ordem do diálogo; muito pelo contrário, mostram muito senso e equilíbrio.
O texto começa bem descontraído, característica, aliás, que se mantém até o final, sem comprometer, todavia, o rigor das revelações. É um livro indispensável e, parece-me, definitivo sobre o tema da vida após a morte.
Detalhe, nenhum dos dois principais interlocutores tem comprometimento com qualquer das religiões conhecidas, ainda que não se autodefinam ateus.

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