
Sinopse
Mário de Andrade definiu para sempre: amar é verbo intransitivo. O amor atrai pela promessa do bem, mas cutuca uma ferida narcísica: expõe nossa carência, nossa incompletude. Quando amamos, sofremos porque vemos no outro tudo o que nos falta e queremos. Sofremos porque temos medo de que o outro nos abandone, levando consigo uma parte nossa que nos desabita. Se não amamos, sofremos porque não temos com quem compartilhar o que temos. Se não somos amados, não adianta ter o que compartilhar.
Crônicas do Amor Impossível mostra a corrosão que o amor provoca no outro lado. O que quebra na engrenagem do outro, os escombros pós-explosão e o que restou. Sem sonhos e sem conselhos o livro fala de amor.
Trechos
Trechos
se amor houvesse, isto me bastaria para desaprender meu caminho, para vagar da praça mauá à cinelândia sem direção, quieto e calado, pequeno, leve, para me perder nas curvas e becos da cidade nua, para que me diluísse na multidão? seria suficiente para tocar teus cabelos, para guiar meus dedos por sob a tua saia até teu úmido reduto, para desejar ouvir de ti um gemido? se amor houvesse, isto me bastaria para que eu admirasse o céu do aterro, insano e vasto, amplo, alto, para criar asas que me levariam até o sol repetindo o voo de ícaro? me bastaria que nos encontrássemos em um horizonte de eventos, que tua respiração se fundisse à minha, que eu tornasse a crer em sonhos? se amor houvesse será que tu entenderias que por tua causa desaprendi o caminho, por tua causa vaguei sem direção, por tua causa me perdi, por tua causa parei para olhar o céu, por tua causa tornei a sonhar?
guardei para ti rosas e versos, construí cada palavra, pus em cada uma um gosto de sol e mel, busquei matizes e luzes. aguardei que sobre elas derramasses teu sorriso ao encontrares ali o teu nome. minha satisfação brotou entre as pétalas do jardim. o que fiz foi para esquecer as lágrimas já que agora somente teus dedos correm pelo meu rosto.
antes que eu pudesse me dar conta, desde o princípio, antes mesmo de te conhecer, já te amava. cultivava este amor repleto de promessas imprevistas, em outro hemisfério, em terras distantes, em outro continente, por cruzar mares e oceanos até me encontrar. já amava a tua cor e o teu toque, tuas palavras antes que as ouvisse, já previa o emaranhar de nós e nosso abraço, minha ânsia em percorrer teus relevos e teus segredos, teus pelos em minha boca, a umidade entre tuas pernas. já tinha minhas mãos à espera das tuas, sempre aguardando a tua chegada, o momento delas envolverem os teus peitos. te esperei, repleto de histórias de outras tantas que se desvaneceram no momento em que teus lábios se encontraram com os meus.
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Jardim
Jardim: s. m., segundo o Aurélio, espaço ordinariamente fechado, onde se cultivam árvores, flores, plantas de ornato. Jardim: alter ego de Sergio Almeida, na vida real, cidadão anônimo comum que também luta pela sobrevivência, ciente de que o universo não é necessariamente justo ou injusto, alguém que ainda vive, que busca e espera, acerta e erra, que aceita o custo de estar vivo.O jardim é uma tentativa humana de organizar a natureza, ordenar o desordenado e também uma alternativa para organizar e conciliar a metamorfose das emoções, ordenar as leituras de mundo, decifrar a própria existência.
Sou a soma de tudo o que vivi e que sonhei, um colecionador dos resultados que os dados do acaso fornece.Meu maior patrimônio são os meus versos, com eles construo meu jardim.
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Comentários de leitores e críticos
Jardim, com seus versos em primeira pessoa e transfigurados em prosa nos permite uma confissão maior e mais apurada do estado da alma. É clara sua intenção em expressar o deplorável estado psicológico em que o eu encontra-se. “levo comigo o teu último beijo. 14 horas, 19 de março, comecei a morrer."
Freud expõe que a perda de um amor iguala-se, dum certo modo, à morte física. Um estado de luto, onde a tristeza prevalece. Há, no entanto uma luta constante para permanecer vivo. Uma recusa em permanecer neste estado, em se tornar mais um objeto no mundo. O poeta faz um inventário de suas perdas e ganhos. Ao tratar a dor que o consome tem sempre em mente que a desconstrução abre o espaço para o novo, para a superação, que a vida não pode e não deve ser em vão. " se o agora é inconsistente me volto para o futuro que desconheço."
O autor sempre traz para o texto suas perdas, os versos sugerindo um vazio interior, uma desilusão “estranha liberdade que me torna insensível ao azul do céu, que esconde meus alicerces ruídos, minha casa incendiada”. São palavras duras e mansas, estrategicamente posicionadas uma contra a outra que
se referem a tudo que se perdeu e a tudo o que poderá vir, no futuro, ainda que incerto, diferente do presente, de seu momento atual.
Sem pudores, expõe sua nudez, sua vulnerabilidade, sua fragilidade, sua solidão. Impelindo pela sua permanente inquietação, sente que, apesar de tudo, é preciso continuar para além da curva da estrada. É preciso ir ao encontro do jardim, ir além do passado, apesar da constatação do sonho fragmentado.
É uma poesia intensamente musical. Faz uso de um vocabulário áspero e utiliza um tom muitas vezes interrogativo, muitas vezes negativo, por vezes irônico. É também uma poesia que faz uso de uma linguagem fortemente simbólica, onde abundam metáforas inesperadas e os paradoxos desconcertantes, convidando ao leitor a decifrar seus enigmas a se lançar no arriscado voo de Ícaro.




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